Vertigo (Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock, 1958)

James Stewart - vertigo

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Em um mundo onde proliferam lentes de câmeras fotográficas profissionais de alta resolução, ou evoluem aparelhos celulares de elevada capacidade de transmissão e recebimento de dados e processamento de imagens e fotos, mais do que nunca, é procedente a questão da necessidade de reprodução da realidade instantânea. Sim, porque o que vemos hoje com a massificação da internet e dos meios de comunicação em geral é exatamente a completa deturpação da qualidade da informação em virtude da rapidez. A língua, a construção e a mensagem em si pouco importam diante da efemeridade. A divulgação deve ser feita no mesmo minuto (no máximo no quinto minuto seguinte), inadiável, urgente, quase vital sob pena de extinção do espaço onde é veiculada ou demissão do agente por ela responsável. Ou quando não provém de um grande portal ou empresa, resulta em intensa frustração do detentor do blog ou site (hoje qualquer um pode propagar a informação que quiser no instante que quiser). E então tudo é válido. Se corrige depois. Qualquer coisa os leitores reclamam. A gente chama de “participação” ou “espaço democrático” e ainda alavanca o número de acessos.

Pois bem, parece haver consenso atualmente (mas historicamente nem sempre houve) que ao utilizar um instrumento que particulariza um fragmento do ambiente, imediatamente o último se torna manipulável, por existirem objetos fora de foco que ele não mostra. Por outro lado, uma vez que a máquina exige a presença humana para o posicionamento adequado ou captação da imagem, ao menos no instante inicial, obviamente, representa um ponto de vista: o de seu manipulador. E não interessa se ele está captando imagens da natureza ou um cenário produzido em estúdio, se é um fato ou ficção, é algo inerente ao processo. E daí cabe a discussão sobre a qualidade do que está sendo reproduzido. Ou, em muitos casos, a ausência dela.

Do mundo da notícia para o cinema, em específico, vale dizer que um diretor realiza inúmeras escolhas que produzem uma certa manipulação no público a fim de criar um universo fílmico, cuja dinâmica depende de processos internos às condições de montagem, sequências, ambientação, comportamento dos personagens, enquadramentos, posicionamentos, etc. Esta linguagem cinematográfica serve ao propósito de entreter e, por vezes convencer o espectador a manter o interesse no filme de modo a criar uma coerência interna.  O suspense recorre a doses minúsculas de uma espécie fictícia de droga atuante no sistema nervoso central, administrada aos poucos, mas de caráter cumulativo, cujo efeito final consiste no corte da respiração da “vítima”.

Mas algumas vezes essa coerência é simplesmente soberba. Em Vertigo, uma estória aterrorizante de suspense  adaptada de um livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac (D’Entre Les Morts), James Stewart é o protagonista de uma série de eventos estranhos cuja trama o conduz a um estado de profundo estresse mental. Seu personagem, John Ferguson, é um detetive aposentado devido a um incidente traumático na qual desenvolveu acrofobia.  No entanto, um amigo de faculdade, hoje um magnata ativo na indústria naval, o intriga solicitando que vigiasse sua esposa, que vinha apresentando um comportamento estranho com fases de transe na qual agia como uma mulher que suicidara-se há muitos anos atrás mas não se lembrava de tais momentos. Na medida em que John “Scottie” se envolve na investigação, progressivamente vai se envolvendo em uma complexa relação amorosa com uma mulher extremamente perturbada, com personalidade atormentada e repleta de mistérios.

O filme de Hitchcock espanta pela beleza da utilização da técnica cinematográfica para criar um clima denso e psicológico. Os enquadramentos amplos esbanjam objetos em tela, cores harmônicas e lindos contrastes quando convenientes, com movimentos de câmera que enfatizam os papéis desempenhados por cada personagem na estória (especialmente na primeira e segunda partes do filme, quando ainda estão sendo apresentados). Os olhares e interpretações de Stewart, Kim Novac e Barbara Bel Geddes são extraordinários e reforçam ainda mais os papéis (todos complexos) desenvolvidos por Hitchcock. O ritmo cadenciado e a trilha sonora recriam a movimentação sugerida pela imagem, conferindo ênfase à atmosfera de suspense e possuindo um papel pronunciado próximo a conclusão, onde a atmosfera se torna mais sombria e os cenários menos coloridos e mais escuros. Destaque para a iluminação por vezes “febril” e pesada relatando a obsessão de Stewart com suas atitudes frequentemente irracionais no terço final.

Vertigo versa sobre problemas de memória, distúrbios emocionais, traumas psicológicos, insanidade e obsessão, intercalados com um perigoso romance. Todos esses temas estão ligados à mente humana e o eixo escolhido por Hitchcock para conectá-los é através da linguagem. O que impressiona os sentidos dos protagonistas e desenvolve as disfunções supracitadas é a linguagem visual. Não é à toa que os “motifs” como as frases que são repetidas em contextos diferentes ou o coque em flor do cabelo/cor loira/morena/colar da moça, roupas e outros são representativos e reforçadores no texto. Mas a estética é mais inteligente para o público que espia. Ele, além de ver o que os personagens não vêem, pelo seu campo visual ampliado e pela noção de conjunto muito maior, ainda tem o auxílio da trilha (auditivo) e do contexto “recortado”. Perfeito para perceber elementos que os personagens não percebem, tentar ajudá-los…mas não ter a quem recorrer.

Considerado por muitos como o melhor filme de Hitchcock, só teve sua qualidade reconhecida bem depois. Ao meu ver, irretocável. Cinema onde toda a linguagem atua no sentido de compor a estória,  a atmosfera e levar ao desfecho inusitado. Uma das raras ocasiões em que a sétima arte atinge o auge das possibilidades de um roteiro. Obra prima do mestre do suspense.

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A Erva do Rato (Júlio Bressane, 2008)

(republicação)

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Se perguntássemos ao criador (se hipoteticamente ele existe) do que somos compostos simplificadamente, provavelmente ele bebicaria sua semipreenchida xícara de café, franziria o sobrolho, suavizaria sua expressão com um leve sorriso de canto de lábio e concederia a resposta em um átimo com olhar de desdém: “ossos, sangue e carne”, ele diria.

Sabe-se, entretanto, que estes elementos combinados em uma infindável variação de possibilidades confeririam uma amplitude incrível de “movimentos” complexos. Andar, ver, ouvir ou desenvolver algumas atividades de alta complexidade (como as batidas cardíacas, a respiração ou o fluxo de adrenalina conferido pelos sustos, etc) exigem uma coordenação inacreditável de associações improváveis entre nervos, músculos e transporte de substâncias específicas.

No entanto, o mais importante dos princípios humanos não está na coordenação refinada de tais “movimentos”, mas na concepção, elaboração e concretização dos sentimentos. A consciência nos confere perspectiva no interior do obscuro universo da racionalidade (e até mesmo em um pouco da irracionalidade). O sentir não basta apenas, é necessário compreender e mesmo dominar o que se sente.  Ah, mas tarefa difícil esta…o inimigo é interno. Basta um inevitável piscar de olhos e um mundo totalmente adverso ao real é imediatamente originado. E que mundo é esse que mesmo sendo fictício é capaz de promover tanto dano/dor ou alegria/felicidade?

A Erva do Rato não é um filme fácil (como todo filme que tem como pano de fundo o universo irracional). Logo de início, percebemos que a atmosfera recriada, embora constituída de elementos concretos, não reflete o real como vemos. Estamos diante de uma releitura de eventos que poderiam ser reais, mas talvez não o sejam da forma que percebemos.

Selton Mello representa um protagonista frio, sombrio e de ar doentio. Ao conhecer uma mulher em um cemitério (vivida por Alessandra Negrini), desenvolve uma relação atípica, a convida para morar consigo em circunstâncias estranhas e logo passam a dividir o mesmo espaço. Notadamente, porém, ele jamais desenvolve com a moça uma relação sexualizada, é como se o rapaz se tornasse uma espécie de pai ou curador da garota. Citando textos em voz alta enquanto ela realiza anotações, parecem estabelecer uma excessiva distância, mesmo dividindo a mesma cama e a mesma mesa de café da manhã.

E então, volvemos ao princípio. Já mencionamos a sede do domínio. Agora contemplemos o lado sórdido, a razão do sorriso do criador. Imaginemos, a princípio, uma folha de papel.  Matematicamente podemos dividi-la em inúmeros pontos interiores e chamarmos tal região de região interna. Vamos ainda imaginar cada um desses pontos como o símbolo de um fenômeno natural.  Agora tomemos um círculo desenhando seus limites com um lápis comum de uma região qualquer dentro da folha. Cada vez que alguém domina um elemento dentro do círculo (ou compreende o “segredo” de um fenômeno natural), o ponto correspondente se acende.

Para tornar mais complexo, imagine que cada vez que nos afastamos do centro do círculo mais difícil é acender os outros adjacentes. Tomando a representatividade desse círculo no espaço, é razoável supor que pelo menos 5% das luzes no interior do círculo estão acesas. Os pontos acesos, como é de se esperar, representam todo o conhecimento humano acumulado nos séculos de pesquisa e desenvolvimento. Mas o que nos interessa são os limites do círculo. Tais limites (que provavelmente jamais serão alcançados) são a porção do universo que podemos conseguir decifrar com nossa racionalidade. E isso utilizando cada ponto do cérebro em prol desse interesse.

E o restante da folha externa ao círculo, você me pergunta (a gargalhada do criador).  O restante da folha não é atingível por nossa capacidade. Não é explicável por nossas limitações. Você pode ser o homem mais inteligente do mundo de todos os tempos e de todas as épocas, jamais conseguirá compreender. E torturará-se eternamente nas trevas do desconhecimento.

Esta ruína é a ruína do personagem de Selton Mello, neste ponto de vista. A relação que apresenta o domínio de sua natureza, do jeito que considera correto, sofre uma grande dilaceração com a compra de uma máquina fotográfica. Este elemento de desagregação funciona como um instrumento punitivo e obsessivo do rapaz. Aos poucos, ele consegue convencer a moça a posar cada vez mais despida de seus pudores. Aproveitando-se do tormento sexual da garota, ele se aproveita dos lábios voluptuosos da vítima, da sedução de seu corpo entregue aos desejos de sua mente incorruptível que somente ganham vazão nos closes tortuosos e estáticos da lente da câmera. Ela sim, perscruta, percorre, venera e destila o corpo feminino, sua identidade e segredos íntimos.

O domínio seria completo. Diante da mente cada vez mais corrompida e desesperada da moça, as fotos se tornavam mais sensuais e eróticas, entretanto contidas, imersas em respeito jamais abalado. Ela era o objeto perfeito de devoção. Mas…

O desejo sexual afeta também o masculino. O homem não pode fugir de seus fatores instintivos. A carne dantes de odor agradável e singelo se transforma em podridão submersa em hormônios químicos. A genitália em flor feminina torna-se a pulsação do desejo masculino. A putrefação da moral dá a luz a um animal voraz, que deteriora rapidamente os pensamentos coordenados. Como um rato. Um rato que percorre silenciosamente as vertentes do incorruptível.

Ora, é o rato quem delineia as curvas sutis do corpo da mulher. É o rato que a faz gemer de prazer diante da consumação do sexo. É o rato quem representa a porção incompreensível da natureza. É o rato quem vence. E o criador gargalha de novo. Porque o homem nem consegue encará-lo. Porque ele proveio das entranhas do homem sem nome. O homem é o rato. Desnudo e desprovido de seu pífio domínio. Renegado e restrito aos esgotos repletos de vômitos, fezes e urina.

Não há dúvidas. O rato precisa morrer. E a metáfora de sua morte deve bastar para voltar a enxergar a mulher como o objeto. Desprovido de sensualidade. Que não tenta ou desperta o rato, pois ele está morto. Novamente se volta a ossos. Um esqueleto sem sangue ou músculos, sem vida. Ossos que não incomodam o lado ruim, que resignam o esgoto ao esgoto. A podridão ao abismo. De novo. Para sempre. Ou até a próxima vez.

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Guess Who’s Coming to Dinner (Adivinhe quem vem para jantar, Stanley Kramer, 1967)

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Enquanto Get Out ambiciona a discussão da temática de preconceito racial em meio a um contexto de ambientação aterrorizante, de cunho altamente modernizante e linguagem feroz, a obra prima de Stanley Kramer conecta uma premissa praticamente semelhante a um resultado mais poderoso e emocionante do ponto de vista dramático, calcado em diálogos incrivelmente hábeis e um domínio incrível dos personagens pelos respectivos atores que os representam.

Mark Cousins, autor do ótimo “A História do Cinema” refere-se a alguns métodos de criação na sétima arte como complexos processos de intertextualidade onde a linguagem evolui gramaticalmente como se replicasse por genes, crescendo e reproduzindo, ocasionalmente gerando mutações que a aperfeiçoa e amplia suas polissignificâncias.

Não seria, portanto, à toa, por este ponto de vista, que do mesmo modo que John (interpretado pelo magnífico Sidney Poitier) é convidado para jantar na casa de sua encantadora namorada branca, que o jovial Chris também é convidado por sua namorada (bem menos simpáticos e agradáveis pelas intenções de morbidez do roteiro de Get Out) para o mesmo tipo de cerimônia na casa dos pais da moça. A despeito dos rumos distintos das histórias e das atitudes humanizantes que tendem a ser enriquecedoras no caso do filme de Kramer e enfatizadoras de um mundo decadente no caso de Get Out e, apesar de haver uma sofisticação das ferramentas de difusão do preconceito, havemos de convir que não há tanta mudança nos resultados daquele tempo para hoje.

Basta observar que poucos negros ascendem na sociedade, há ainda um rigoroso tabu na apreciação da beleza negra e um preconceito contido formalmente em quase todas as esferas do mundo observável, dentre outras pistas.

Guess Who’s Coming to Dinner se desenvolve praticamente em meio a um único ambiente, o local abarcador de todas as tensões do roteiro: a casa da moça. É lá que será definido o destino do jovem casal, resultará o rompimento ou o fortalecimento das relações paternais e se desnudará o véu que recai sobre as personalidades hipócritas dos personagens (complexos o suficiente para agregar um escopo bastante amplo de discussão da problemática).

Embora embebida em um tecido angelical, Joey, vivida pela encantadora Katherine Houghton, indubitavelmente, é a única personagem da história cuja personalidade sempre compõe positivamente a percepção emocional do espectador.

A beleza está em como a alternância de sentimentos com relação aos protagonistas (e mesmo os coadjuvantes) é ricamente manipulada por Kramer, compondo uma das obras mais belas discutidoras da temática.

Não é possível aqui, também, dizer muito sem revelar os meandros dessa grandiosa história repleta de pequenas surpresas, portanto, limitarei a solicitar atenção para o discurso extraordinário de um debilitado Spencer Tracy (mas incrivelmente dedicado em um papel sensacional), que faleceu pouco depois das filmagens. Obra prima.

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Get Out (Corra!, Jordan Peele, 2017)

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A cena inicial de Get Out apresenta um negro caminhando por um rua ameaçadora, escura (apesar da parca iluminação). Ele fala ao telefone aparentemente nervoso enquanto os carros passam normalmente desfocados… parece procurar um endereço. Um automóvel branco (agora em destaque) começa a trafegar vagarosamente ao seu lado. Ele muda o rumo ao perceber que, devido ao estado de tensão, caminhara no sentido oposto ao desejado. Ao se virar de novo, entretanto, percebe que a porta do veículo está aberta. Neste momento percebe que seus temores não eram infundados.

A trilha é alterada várias vezes nesse pequeno trecho e dita o tom emocional da história neste ponto. O escopo abarca desde o ritmo agradável de uma clássica música antiga até o ruído estridente de um violino que parece destoante da orquestra da qual poderia fazer parte (a transição da tranquilidade para a violência, terror). Quando os créditos iniciais aparecem em meio a uma paisagem repleta de plantações à beira de uma estrada, certamente seu coração está parado em meio à garganta e você está vidrado sem nem se dar conta.

É possível aprender muito observando uma cena em especial de um filme. O início delimita uma série de estratégias de argumentação e narrativa em uma boa história, especialmente quando não apresenta ainda os personagens principais. É importante a construção da ambientação para que o espectador não subestime o diretor, especialmente quando o que se tem a dizer apresenta várias camadas de compreensão.

Get Out apresenta uma série de signos que ultrapassam o âmbito de uma associação corriqueira e é aí que está seu grande tesouro. Pois se uma rua relativamente iluminada, de boa aparência e repleta de carros trafegando se torna mais ameaçadora do que o normal, certamente o terror que se implanta está na mente do personagem e é transplantado para o espectador. Para a direção é linguagem, para o espectador é percepção. Pior, o filme reafirma que o personagem tem razão em fazê-lo (uma das grandes tônicas de Get Out é a dos temores não infundados, algo bastante razoável para um filme dirigido por um negro que conhece bem os percalços do preconceito e como ele tende a ser banalizado na sociedade atual como fundamento de sua manutenção).

A partir daí haverá uma série de referências à dominância branca e sua imposição sobre vários elementos por vezes extremamente sutis da história (desde a cor em si no cenário até a moça dirigir o carro), por vezes tão inteligentes a ponto de serem revertidos ironicamente a fim de causarem impressão de exagero (a admiração quase patológica das características dos negros pelos brancos do filme).

A história é simples e pouco podemos revelar a fim de não proporcionar grandes spoilers. Um homem negro é convidado para jantar pela primeira vez na casa dos pais de sua namorada branca. Desconfiado, ele pergunta a ela se disse à família que era negro. Em uma cena que remete ao clássico Guess Who’s Coming to Dinner, de Stanley Kramer (em breve objeto de resenha aqui), a moça insiste em dizer que tudo está bem e seus pais não são preconceituosos. Obviamente uma cadeia de eventos horrendos ampliará o terror do rapaz e, consequentemente, a tensão do público.

A direção de Peele é genial, repleta de reviravoltas em momentos chave e brilhantes simbologias que abrangem desde ícones do período da escravidão até as formas modernas de marginalização do negro na sociedade atual, bem mais “toleradas”, embora de consequências igualmente explícitas. Diante de um mundo hipócrita e alheio à existência da problemática (pois considera que os níveis atuais de “tratamento” já são satisfatórios), a metáfora acoplada a Get Out é reflexiva, polissêmica e complexa a ponto de gerar grandes discussões. Indicado ao Oscar de melhor filme, é a surpresa do ano.

PS: ótima interpretação de Daniel Kaluuya!

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The Shape of Water (A Forma da Água, Guillermo Del Toro, 2017)

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A despeito de se situar entre a fábula e a crítica e agravar todos os problemas que possíveis incompatibilidades entre as duas estruturas podem proporcionar, o drama de Del Toro tem, sem dúvida, seu valor cinematográfico…o suficiente para abarcar a atenção de uma academia sedenta por temas referentes à diversidade e contra a marginalização social.

Até porque o filme não se esgota em tais movimentos, mas agrega uma suave transição de cores alternando tons verdes, azuis, vermelhos e marrons com marcas impressas sempre personalíssimas quanto ao momento emocional dos personagens. Não há como cansar os olhos, estressar a vista assistindo a tamanha beleza sutil na composição das cenas na tela, nas homenagens ao cinema clássico, no lamento tristonho ao (cada vez maior) esvaziar das salas projetoras, fenômenos que abrangem o mundo contemporâneo de forma vibrátil. O cinema de Del Toro é agradável, bonito, tocante.

Shape of Water nos presenteia com cenas maravilhosas como a lindíssima declaração em que a personagem central, muda, faxineira e mulher realiza perante Mr. Giles com gestos (mesmo que mais tarde ele a abandone depois do discurso) evocando a beleza que o monstro consegue visualizar em si devido a falta de referências contaminantes, da falta de necessidade de sua completude para a sociedade humana e a magnífica enunciação do amor infinito para o monstro, onde a luz se torna pálida e desvanece gradativamente para ceder à dança, ao mundo perfeito em uma das cenas mais belas de 2017.

Mas como todo conto, a presença dos estereótipos, devido a densidade do roteiro, que abrange desde mulheres com forte atuação/domínio nas relações em seus casamentos até a alusão a homossexuais, negros, latinos (o monstro tem origem na América no Sul), pessoas de empregos dignos, mas tidos como marginais, dentre outros e seus contrapontos à família modelo norte americana simbolizada no “paradigma normal-posteriormente-degenerado” de Richard, acaba criando uma complexificação de densidade limitada, ao meu ver. Richard é demasiado fraco desde o início para demonstrar seu papel de “vilão” e cumprir o lado “fabulesco” e seu papel acaba perdendo justamente no escopo da profundidade. Esse papel caberia à estrutura mais livre, que não parece ser a escolha central do filme, nada de errado aqui.

O romance central é poderoso e seu estabelecimento satisfatório e justificado, mas seu papel no desenvolvimento das forças do filme (diante da quase obrigação de situá-lo historicamente, espacialmente e emocionalmente) acaba proporcionando um peso relativamente grande demais.

Del Toro certamente tem algo a dizer aqui, há muita paixão envolvida na história e este é sem dúvida seu melhor filme desde Labirinto do Fauno (que considero uma real obra prima). É um fortíssimo candidato ao Oscar. Well done.

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“It’s alive! It’s alive!”

No filme Frankenstein de 1931, em um contexto bem diferente, a criação de um monstro motivou a frase acima enunciada que se tornou uma das mais famosas da sétima arte, ainda hoje nos atingindo aos ouvidos remetendo rapidamente à famosa obra de terror dos primórdios cinematográficos.

Não havia forma mais adequada para iniciar os comentários do blog que os convida a essa viagem pelo cinema através da visão de um cinéfilo que escreve por prazer e paixão, sem compromisso com técnica ou crítica (temas das quais não entende) .

Aqui desfilarão as mais diversas épocas, do cinema antigo ao atualíssimo, tudo sob a perspectiva de alguém comum. Do musical ao terror extremo, de tudo um pouco em textos que pretendem não ser mais que um comentário sobre os filmes, mas que tentam promover algum ponto de vista de interesse. Vamos embarcar?

“E um dia toda a humanidade se ergueu cercada de flores e não havia mais motivos para chorar o vazio das almas” – Autor Desconhecido

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